Para me romper em palavras
é preciso arrebentar-me
nos limites destas linhas;
é preciso de espaço
e que o passo delimite
a desordem das letrinhas -
ah, para escrever é preciso
que eu me foda inteirinha.
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Engraçado que esse poema foi escrito num papelzinho post-it, o que me pareceu muito incômodo na hora de escrever: minhas idéias não se permitiam restringir, e no entanto, mal cabiam naquele espacinho. Agora que passei para o computador, parece outro poema até - afinal, para quem deseja ultrapassar ou exceder qualquer coisa, a sensação se esvai pelos versos muito pequenos, mais enxutos.
Por outro lado, talvez a ironia da coisa esteja justamente em não ter de apelar para o óbvio, e sim manter a confusão dentro de uma ordem particular, a do ritmo preciso e do final "explosivo" que converge para o comecinho do poema, onde eu espero, de alguma forma, me abrir para a folha - e obter algum contato, alguma proximidade com o caos ululante.
Talvez pareça que eu estou subestimando o intérprete, dizendo essas coisas todas, mas não é não. Fico encucada mesmo! É impressionante como é preciso me foder para escrever. Minha cabeça não pára, e eu fico pensando em detalhezinhos que aparentemente são inúteis, mas que não parecem apenas inúteis - não podem ser, né?
Enfim -- acho que estou sendo pretensiosa demais. Vai ficar assim mesmo.
sexta-feira, 4 de dezembro de 2009
quarta-feira, 28 de outubro de 2009
ele diz que um charuto é apenas um charuto
"Don't fight my idyosincratic reaction to pain!" - Ana C.
mas eu olho o charuto e o
charuto me olha
molha
a boca entreaberta pede
e eu cansei de flertar
trago a fumaça em anéis
suspensos
suspense no ar
sei truques papéis
pra tantos sou pouca
desisto
mato o charuto e percebo -
estou rouca
(espaço livre
para a tese de que sei
o gosto das minhas cinzas)
mas eu olho o charuto e o
charuto me olha
molha
a boca entreaberta pede
e eu cansei de flertar
trago a fumaça em anéis
suspensos
suspense no ar
sei truques papéis
pra tantos sou pouca
desisto
mato o charuto e percebo -
estou rouca
(espaço livre
para a tese de que sei
o gosto das minhas cinzas)
terça-feira, 27 de outubro de 2009
rumor maior
eles falam sobre o humor
uma loira espia as pernas
para fora
reticências
passo a vez de rir e vou
à margem
vez em quando a gente vê
para dentro
eu estava de passagem
e te vi
nossos olhos
cataratas
bom tê-lo aqui
bem
no meu caminho
que se foda também:
vou ficar
quem é você que
sozinho
me retém?
tu te ris
e eu já sei a graça:
você é o impasse que
não passa.
uma loira espia as pernas
para fora
reticências
passo a vez de rir e vou
à margem
vez em quando a gente vê
para dentro
eu estava de passagem
e te vi
nossos olhos
cataratas
bom tê-lo aqui
bem
no meu caminho
que se foda também:
vou ficar
quem é você que
sozinho
me retém?
tu te ris
e eu já sei a graça:
você é o impasse que
não passa.
quarta-feira, 7 de outubro de 2009
Transição
Madrugada. Eu me esparramo nos lençóis e fecho os olhos. Dispo-me das poucas fantasias que extendem minha vigília, deito de bruços e aguardo o toque de recolher. Que ardor incongruente vem em seu lugar, quem sabe um lapso de coisa nenhuma queimando a epiderme dos meus pulsos que agora crispam arrepios de emergência: um palpitar latejante, mas indesejado. É dia de descanso, e hoje meu silêncio reinvidica o sono ausente com os lábios cerrados. A ânsia contida flameja antes de por fim apagar naquele fogo que se funde às sombras do quarto, desvelando minha nudez precária, pálida. Não some sob as pálpebras a inquietação de estar aqui, esperando; e é com o pensamento triste que sinto ciúmes desse travesseiro atrelado a cama, repousando com uma doçura maior que minhas distâncias. O comprimento da cama nos ultrapassa, mas não há espaço para mim. Choro uma agudez indizível enquanto rompe a manhã lá fora com pinceladas fracas de laranja. Passo eu, passam as lágrimas, não sei. Descompasso. O sol nasce com ares de fogueira, clareando a escuridão do quarto - e meu coração se deixa tomar pelo entardecer numa pancada tátil, cheia de ternura.
quarta-feira, 16 de setembro de 2009
De olhos bem abertos
Acordo e visto jeans esquecidos à revelia de um canto abarrotado de roupas e bichinhos de pelúcia que há muito não pertencem ao pé da cama. Coloco-os. Sei que estou desperta pois me ergo e sustento o peso do corpo extenuado em passos trôpegos, mas bastantes ao trajeto até a cozinha e preparo um café que me põe, senão de pé, ao menos atenta. Balbucio algumas palavras dispersas sobre o cansaço, ainda assim palavras, longilíneas e doces frases se constroem e quando vejo já escrevo. Só se escreve de olhos abertos, é o que penso, regozijada de um vigor pulsante cheio de lascívia para o resto da semana. Olhos abertos para tudo que se arreganha frente ao meu torpor clamando análise e altivez, sem espaço para lamentos ou reticências inúteis - hoje meu cansaço ruge uma exclamação de bicho, minha fera predomina ante ao silêncio, um silêncio sem consolo nem aceitação: minha renúncia, minha sobrevivência. Estou acordada, repito, as pálpebras pendem ao calor da cama e no entanto recomeço a escrever sem razão ou porquê. Tem na minha insistência uma conotação calabresa dos que imigram para o lado de cá e se mostram perdidos frente ao asfalto empoeirado e as prostitutas carcomidas, mas prosseguem, resolutos de paixão pelas causas perdidas; será em vão?, pergunto-me, e continuo a escrever. Palavra, toma meu esforço com alguma compaixão, brota das paredes deste quarto adolescente, diz qualquer coisa sucinta de muita leveza e significado como o saber da cor branca. Branco: límpido, verdadeiro, limpo. Sigo adiante. Sigo. Solução, onde está você? Não há resposta, concluo, e me refaço aos cacos com a esperteza de uma raposa outra na cadeia alimentar, buscando mais que o galinheiro, mas a galinha dos ovos de ouro.
quarta-feira, 26 de agosto de 2009
Exercitando a escrita
Thiago diz, com a propriedade de jornalista e escritor de novelas (renomado autor de historietas contestáveis e artigos entediantes sobre o mercado imobiliário - brincadeirinha!), que devo socializar minha escrita e emendar uma rotina de trabalho árduo - então tá. Aqui estou, desfrutando de um café excessivamente doce e de bolachinhas vagabundas compradas a um e cinqüenta. Penso: o que escrever? Não sei direito. Falta-me assunto, ímpeto e coerência para desenvolver qualquer tema de cunho aproveitável ou até mesmo sensível. Talvez contestem, defendam que a literatura é para quem a sabe, mas tenho cá um desconforto concernente a tudo aquilo extraído do concreto; não, é necessária alguma empatia entre a palavra e os dedos que afundam as teclinhas - leio-me, vejo-me, descubro-me. É por isso que hoje discorro sobre o cansaço de fazê-lo: preciso insistir, lembrar de que não faltei à paixão, mas a mim - quem escapa destas linhas sou eu.
quinta-feira, 4 de junho de 2009
Sobre a chuva e a higiene
Mas como eu haveria de saber que o pânico deixaria um rastro de reminiscências, daquelas que nos atam ao desconhecimento frívolo, o de saber e não saber - saber à porcos e poucos, vislumbrar apenas um feixe escroto de palavras desarticuladas, impróprias à inércia de existirem sem razão e ainda assim perdurarem -; e que o pânico, hoje morto, cercearia esta gelatinosidade disforme qual um espectro que, sem lacunas outras para preencher, tomaria as rédeas da decomposição, deixando resíduos irremovíveis frente a premissa de um futuro sem medos? O medo, o mesmo de antes e sempre, pai das viscosidades miríades, viscosidades vizinhas aos prantos e apelos que, negados, via-se correrem pelo ralo como a família que desbrava a seca; e a seca era eu, era eu, até o estopim de branquidão clarear tudo – desligada a torneira, dissipava-se a água com sujeira e sujeição liquefeitas numa mistura trágica, e com todas aquelas padronagens lisérgicas no chão me restavam apenas os traquejos da vaidade, com a falsa promessa de progresso que a nulidade não traria, e eu não sabia, não podia saber. Afinal, como adivinhar por conta própria que com a poeira da sarjeta também escorreria a exatidão de mim mesma, e que o elo final se perderia por não ter se achado nunca? Nada posso contra isso. Nada - é o que restou, onde as gotas eclodem bolhas.
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